Desde os anos 80, o arquiteto paulista José Wagner Garcia vem propondo uma renegociação com a arte, moldando-se como um artista que trabalha as interfaces entre as novas mídias e as tecnologias científicas e espaciais. Nesta entrevista, Wagner, um dos coordenadores do projeto Cognitus, conta de que forma seu olhar se voltou para a Amazônia e nos apresenta o nascimento do projeto descrevendo sua futura simbiose com o Piatam.
Como começou a sua relação com a Amazônia e com o Piatam?
Em 1990, comecei a desenvolver um projeto a partir do fenômeno geológico que o rio Amazonas representa: a forma como ele provoca a erosão nos Andes e leva seus sedimentos até o Atlântico. Isso me impressionou muito e deu origem ao projeto artístico Amazing Amazon. Em 1997, fiz um livro sobre o tema com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Mais tarde, já com o patrocínio da Petrobras, resolvi apresentar internamente o projeto, pois sabia que a empresa tinha pesquisas em Geologia. Uma das pessoas presentes neste dia era o Fernando Pellon, que hoje é, como eu, coordenador geral do Cognitus. Sua sensibilidade e coragem aproximaram o Amazing Amazon do Piatam. A partir de várias conversas entre nós dois nasceu o Cognitus.
Como você define o Cognitus?
É um projeto que propõe uma nova teoria de conhecimento para interpretar a complexidade de fenômenos sutis na Amazônia, ou seja, padrões e dinâmicas evolucionárias que as metodologias da ciência tradicional não conseguem alcançar. O Cognitus pretende analisar a Amazônia em escalas que vão da microscopia até imagens de satélite, criando ferramentas cognitivas que elaborem um novo conhecimento para construir tecnologia aplicada e depois avançar nas suas questões mais complexas.
Quais as linhas de pesquisa do projeto e como elas se relacionam?
O Cognitus possui três frentes: nanobiotecnologia, robótica avançada e hipersignos. A manipulação em escala nanobiomolecular ajudará a construir biossensores e biochips para qualificar a natureza amazônica, que poderão ser utilizados pelos biólogos. Começa-se nesse ponto a ampliar a escala, para tentar entender como os microorganismos se comunicam. Depois temos a robótica avançada, que vai atuar em áreas onde o homem não chega. A idéia é que os robôs nos permitam ter uma série histórica de dados, mas em tempo real. E os hipersignos vão usar ferramentas semióticas para analisar essas séries que vão redundar em um novo modelo de entendimento diferenciado e científico na Amazônia.
Como os projetos que você vai desenvolver poderiam se relacionar com o Piatam?
A relação dos projetos com o Piatam terá que ser uma simbiose, porque ciência de ponta não se faz se não for em rede. Por exemplo, quando o Cognitus estiver na Amazônia efetivamente, a troca de dados com o Piatam terá que ser direta. Uma interface poderá ser iniciada com projetos integrados, como as Unidades Laboratorias Flutuantes (ULF) que são barcos adaptados que darão maior autonomia e capacidade para o desenvolvimento das pesquisas de campo do Piatam.
Como os robôs serão utilizados em campo?
No lago Janauacá, onde acontecerão as primeiras experiências de robótica do Cognitus, serão utilizados vários robôs com linhas de ação diferentes. Eles vão medir o pH, a temperatura, reconhecer formas bioquímicas e trocar informações entre si. Os dados dos robôs serão enviados para uma central na Amazônia e poderão chegar via satélite para gerentes da Petrobras ou pesquisadores em qualquer cidade.
Você acredita que os robôs substituirão os homens nas pesquisas do futuro?
A idéia de substituir o homem não existe. O que acontece é que os dados e informações produzidos por robôs são de outra natureza. Quando o cientista delega certa estratificação de conhecimento para os robôs, ele pode pensar em um nível mais alto, dar um novo salto. Na verdade, os robôs permitem elevar o patamar de conhecimento. Porque não se faz ciência sem afeto, sem admirar a natureza e os homens, e isso não exclui a tecnologia de ponta.
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